O tamanho da presa influencia seu valor nutricional?

Quando falamos sobre alimentação de serpentes, lagartos carnívoros, aves de rapina e outros animais predadores sob cuidados humanos, é comum que a principal preocupação seja escolher uma presa de tamanho adequado.
Mas será que uma presa maior oferece apenas mais alimento? Ou sua composição nutricional também muda ao longo da vida?
Essa foi a pergunta que motivou o estudo científico “Effect of Slaughter Weight on the Bromatological Composition and Energy Value of Rats (Rattus norvegicus) and Mice (Mus musculus)”, publicado em 2025 sob a liderança do Biotério Pantanal e com a participação e apoio de pesquisadores da UNESP, UFMS e UFPA.
Esta é a segunda matéria da série especial que apresenta os trabalhos científicos liderados pelo Biotério Pantanal e traduz seus resultados para uma linguagem prática e acessível aos responsáveis por pets não convencionais.
Nem todo rato é igual
Quem compra presas congeladas já percebeu que elas são comercializadas em diferentes tamanhos. No entanto, muitas pessoas não sabem que essas diferenças vão muito além do peso.
À medida que ratos e camundongos crescem, seu organismo passa por profundas transformações. Ossos se desenvolvem, músculos aumentam, reservas de gordura são formadas e o metabolismo muda. Tudo isso altera a composição nutricional da presa.
Para entender essas mudanças, os pesquisadores analisaram milhares de exemplares de ratos e camundongos em diferentes fases da vida, desde recém-nascidos até animais adultos.
O que foi avaliado?
O estudo analisou diversos componentes importantes para a nutrição dos animais carnívoros:
- Cálcio;
- Fósforo;
- Proteína;
- Gordura;
- Umidade;
- Matéria mineral;
- Carboidratos;
- Valor energético.
O objetivo era verificar como esses nutrientes variam conforme o crescimento da presa.
Filhotes possuem mais água
Um dos resultados mais evidentes foi a redução gradual da umidade conforme os animais envelhecem. Os filhotes apresentaram altos níveis de água corporal, enquanto os indivíduos maiores e mais velhos possuíam menor percentual de umidade.
Isso acontece porque, durante o crescimento, ocorre um aumento da massa muscular, da gordura corporal e da mineralização dos ossos.
Na prática, isso significa que uma presa recém-nascida possui uma composição bastante diferente de uma presa adulta, mesmo pertencendo à mesma espécie.
Mais idade, mais cálcio e fósforo
Os pesquisadores observaram que os níveis de cálcio e fósforo aumentam progressivamente conforme os animais crescem.
Isso faz sentido biologicamente.
Durante o desenvolvimento, os ossos passam por um processo contínuo de formação e fortalecimento, aumentando a quantidade desses minerais no organismo.
Para espécies que possuem elevada demanda de cálcio, como muitas serpentes reprodutoras, lagartos ovíparos e algumas aves, essa informação pode ser extremamente útil na elaboração de dietas mais equilibradas.
A proteína também aumenta
Outro resultado importante foi o aumento gradual dos níveis de proteína conforme o crescimento dos roedores. Animais maiores apresentam mais massa muscular, o que naturalmente eleva a quantidade de proteína disponível para o predador.
Isso significa que uma presa adulta não representa apenas uma refeição maior, mas também uma fonte mais concentrada de nutrientes estruturais importantes para crescimento, manutenção muscular e reprodução.
E a gordura?
A gordura também apresentou mudanças significativas durante o desenvolvimento. Em geral, animais mais velhos tendem a acumular maiores reservas energéticas.
Esse fator é particularmente importante para espécies que possuem necessidades energéticas elevadas ou que estão em recuperação nutricional. Por outro lado, para animais com tendência à obesidade, o excesso de presas mais gordurosas pode exigir atenção e planejamento.
O valor energético aumenta com o crescimento
Como consequência do aumento de proteína, gordura e minerais, o valor energético das presas também tende a crescer conforme elas envelhecem.
Em outras palavras, um rato ou camundongo adulto fornece mais calorias do que um filhote. Essa informação pode ajudar responsáveis e médicos veterinários a ajustarem melhor a frequência alimentar e a escolha das presas de acordo com o objetivo nutricional de cada animal.
O que isso muda na prática?
Talvez a principal contribuição do estudo seja mostrar que escolher uma presa não deve ser apenas uma questão de tamanho.
Ao selecionar uma presa, também estamos escolhendo um perfil nutricional específico.
Por exemplo:
- Filhotes possuem maior teor de água e menor concentração de nutrientes;
- Animais adultos apresentam mais proteína, gordura, cálcio e fósforo;
- Presas maiores geralmente oferecem mais energia;
- Diferentes fases da vida da presa podem ser utilizadas estrategicamente conforme as necessidades do predador.
Isso abre novas possibilidades para um manejo alimentar mais preciso e individualizado.

Ciência aplicada ao manejo nutricional
Durante muitos anos, a alimentação de animais carnívoros foi baseada principalmente na disponibilidade das presas e no tamanho adequado para ingestão.
Hoje, estudos como este demonstram que é possível ir além. Conhecer a composição nutricional das presas permite adaptar a dieta para situações específicas, como:
- Crescimento;
- Reprodução;
- Recuperação de enfermidades;
- Controle de peso;
- Manutenção de animais idosos.
Quanto mais informações científicas estiverem disponíveis, mais eficiente será o manejo nutricional dos animais sob cuidados humanos.
A principal lição do estudo
O trabalho conduzido pela equipe do Biotério Pantanal deixa uma mensagem clara: a presa muda nutricionalmente conforme cresce.
Por isso, ao escolher entre filhotes, juvenis ou adultos, o responsável não está apenas variando o tamanho da refeição, mas também alterando a quantidade de proteína, gordura, minerais e energia oferecida ao seu animal.
Compreender essas diferenças é um passo importante para uma alimentação mais estratégica, segura e baseada em evidências científicas.
Leia o artigo completo
Esta matéria faz parte da série especial do Portal Meu Exótico dedicada à divulgação científica dos trabalhos publicados com participação do Biotério Pantanal.
Quer se aprofundar ainda mais no assunto?
Acesse aqui a pasta de artigos científicos disponibilizada gratuitamente pelo Biotério Pantanal e confira este e outros estudos na íntegra.
Nos próximos capítulos da série, continuaremos traduzindo a ciência para a prática, trazendo informações que podem fazer a diferença no manejo alimentar e no bem-estar dos animais carnívoros sob cuidados humanos.




